Artigo: Ressurgimento da doença, problemas de capacidade de produção e preocupações de segurança no contexto de uma população em envelhecimento: Existe uma necessidade de uma nova vacina contra a febre amarela?

12 November, 2019

Estimados amigos do HIFA-PT,

Esse artigo acaba de ser publicado e fala sobre as novas ameaças de um novo surto da febre amarela em regiões endêmicas (África e América do Sul) e também nas não-endêmicas. Sobretudo, aborda o aspecto da incidência da doença no contexto de uma população em envelhecimento e das medidas que deveriam ser tomadas. Cita com destaque o surto em Angola (em 2015) e Brasil (em 2016).

Ainda que publicado somente em inglês penso que vale bastante a pena a leitura e o compartilhamento com suas redes.

Abaixo segue a referência ao artigo e um trecho traduzido ao português com o intuito único de facilitar o intercâmbio por meio deste fórum. Não deve ser portanto, tratado como oficial.

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Review

Disease Resurgence, Production Capability Issues and Safety Concerns in the Context of an Aging Population: Is There a Need for a New Yellow Fever Vaccine?

Kay M. Tomashek * , Mark Challberg, Seema U. Nayak and Helen F. Schiltz

Vaccines 2019, 7, 179; doi:10.3390/vaccines7040179

Abstract: Yellow fever is a potentially fatal, mosquito-borne viral disease that appears to be experiencing a resurgence in endemic areas in Africa and South America and spreading to non-endemic areas despite an effective vaccine. This trend has increased the level of concern about the disease and the potential for importation to areas in Asia with ecological conditions that can sustain yellow fever virus transmission. In this article, we provide a broad overview of yellow fever burden of disease, natural history, treatment, vaccine, prevention and control initiatives, and vaccine and therapeutic agent development efforts.

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:: Resumo

A febre amarela é uma doença viral potencialmente fatal e transmitida por mosquitos e que parece estar experimentando um ressurgimento em áreas endêmicas na África e América do Sul e se espalhando para áreas não-endêmicas apesar de uma vacina efetiva. Esta tendência aumentou o nível de preocupação com a doença e o potencial de importação para áreas na Ásia com condições ecológicas que podem sustentar a transmissão do vírus da febre amarela. Neste artigo, fornecemos uma visão geral da carga da doença, história natural, tratamento, vacina, prevenção e iniciativas de controle, e esforços para o desenvolvimento de agentes terapêuticos e vacinas.

:: Panorama

Nota: os número sem colchetes [ ] são respectivos às referências bibliográficas citadas pelo autor no texto original e que foram mantidas para facilitar a conferência em caso de necessidade/interesse.

A febre amarela (YF - por sua sigla em inglês) é uma doença potencialmente fatal causada por um membro da família Flaviviridae, do gênero Flavivirus, vírus da febre amarela (YFV) [1]. A doença é endêmica na África equatorial, áreas tropicais da América do Sul, leste do Panamá e Trinidade. O YFV é transmitido à seres humanos e primatas não humanos (NHP) por Aedes spp. mosquitos na África [2,3]e Aedes spp., Haemagogus spp. e Sabethes spp. mosquitos na América do Sul [4,5].

Existem três ciclos de transmissão para o YFV: 1) ciclo Silvestre envolvendo NHP e Aedes africanus, Haemagogus spp. ou Sabethes spp. mosquitos em selvas com transmissão esporádica para os seres humanos que frequentam essas áreas; 2) ciclo intermediário envolvendo NHPs, humanos e Aedes spp. mosquitos em ambientes de savana Africano; e 3) ciclo urbano que envolve principalmente mosquitos Aedes aegypti e seres humanos nas cidades. Enquanto os ciclos de transmissão silvestre e intermediário do YFV são responsáveis pela maioria das doenças humanas, na última década tem havido um ressurgimento em surtos urbanos da doença (ciclo 3) [6].

Muitos dos recentes surtos no continente africano, incluindo em Uganda em 2010 [7,8], Etiópia em 2013 [9], Angola em 2015 [10,11] e Nigéria em 2017 [12], foram os primeiros surtos de YF nesses países em mais de 10 anos. Além disso, o surto de Angola resultou na propagação para a República do Congo [13], Mauritânia e Quênia [14], bem como a importação de doenças para China, por cidadãos chineses não vacinados e que foram infectados enquanto trabalhavam em Angola [15,16].

Na América do Sul, um grande surto urbano foi detectado em 2016 em uma área não endêmica do Brasil, e a partir de 2016 até março de 2019, houve 2.204 casos humanos relatados ou mais casos do que nos 20 anos anteriores combinados [17-22]. Coletivamente, esses recentes surtos de YF aumentaram o nível de preocupação com a doença e risco de se espalhar para áreas não endêmicas na África, América Latina e países da Ásia onde YFV está ausente [23,24].

Fatores que podem acarretar na disseminação da doença e aumentar a probabilidade de grandes surtos urbanos incluem população de vetores numa cobertura geográfica mais abrangente [25], aumento da urbanização, uma mobilidade maior da população humana [21,26-28], aumento no população de NHP [29], e seu deslocamento devido ao desmatamento na Bacia Amazônica e florestado em áreas na África equatorial [24,30]. A baixa imunidade da população à YFV em áreas endêmicas vizinhas devido à baixa cobertura de vacinação também pode ser um fator contribuinte [31,32].

Em resposta aos surtos em Angola e na República do Congo, em 2017, a Organização Mundial da Saúde, UNICEF e Gavi (Vaccine Alliance) desenvolveram uma nova iniciativa global, a Estratégia de Eliminação da Epidemia da Febre Amarela (Eliminate Yellow Fever Epidemics (EYE) Strategy, por sua sigla em inglês), em colaboração com 50 parceiros em apoio a 40 países de alto risco [33].

Tal estratégia (EYE) concentra-se em prevenir que casos esporádicos de YF derivem para surtos, mitigar os surtos, e prevenir a exportação, uma vez que os surtos são identificados. O objetivo do EYE é eliminar surtos de YF globalmente até o ano de 2026, vacinando 1,4 bilhão de pessoas em 40 países, apoiando programas e campanhas de vacinação e reforço da vigilância e capacidade laboratorial para detectar, monitorar e responder à transmissão de YFV.

EYE baseia-se nas lições aprendidas da Iniciativa da Febre Amarela da OMS, que foi criada em colaboração com a Gavi, a Vaccine Alliance e a UNICEF em resposta aos surtos de YF na África Ocidental no início dos anos 2000. Essa iniciativa introduziu a calendarização da vacinação em crianças nos países endêmicos, realizando ainda campanhas preventivas em massa em áreas de risco, e estabeleceu um estoque global de vacinas para responder a surtos. Enquanto os esforços da iniciativa preveniram os surtos de YF na África Ocidental, muitos dos recentes surtos africanos ocorreram na África Central e Oriental.

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Boa leitura a todos.

Saudações,

Eliane Santos, Moderadora principal do HIFA-PT